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Vidigal, ou o maior mico do mundo

Luis Fernando Verissimo

Pouco depois de ver o convite para enterro do Vidigal no jornal e comentar com a mulher "acho que esse Vidigal eu conheci", Rubens recebeu um telefonema. Da viúva do Vidigal. Enquanto Rubens fazia uma careta de espanto para a mulher, a viúva do Vidigal se identificava, dizia que o Vidigal falava muito nele e perguntava se podia lhe pedir um favor.

- Claro, claro.

A viúva então disse que um dos últimos pedidos do Vidigal fora que ele, Rubens, cantasse no seu enterro.

- Que eu?

- Cantasse no enterro dele.

- Mas eu...

- Ele disse que você saberia o que cantar. Que era só dizer "aquela música" e você saberia.

- Bom, eu...

- Posso contar com você? O enterro é às cinco.


Depois de saber qual era o pedido da viúva do Vidigal, a mulher do Rubens perguntou, incrédula:

- E você disse “sim”?!

- O que eu podia dizer? Foi o último pedido do Vidigal!

- E que música é essa?

- Não me lembro. Mal me lembro do Vidigal!

- Mas, Rubens, você não sabe cantar. Você desafina o "Samba de Uma Nota Só", o "Parabéns a Você"!

- Eu sei! Eu sei!

- E você vai assim mesmo?

- Agora está prometido.


No carro, a caminho do cemitério, Rubens tentava se lembrar. Qual seria "aquela música"? Se ao menos se lembrasse da época em que andava com o Vidigal.

Sabendo a época, localizaria a música. Ou improvisaria uma na hora. Talvez Samba de Uma Nota Só, só a primeira parte? Não, não ficaria bem. Parabéns a você muito menos. Qual era a música? Qual era a música? E Rubens se aproximava do cemitério como um kamikaze se aproximando do alvo.


Ela se enganou, pensou Rubens. Ou o Vidigal se enganou. Não era eu que cantava a música. Era outro. Mas quem? Não se lembrava de ninguém cantando, na época em que andava com o Vidigal e a turma se reunia no... no... Esquecera até o nome do bar! Ninguém daquela turma cantava. Devia ser outra turma. Era isso. O Vidigal, à beira da morte, confundira as coisas. O cantor era de outra turma.


O cemitério cada vez mais perto. Não vou, pensou Rubens. Não preciso ir. Foi um engano. Dou meia volta agora, depois invento uma desculpa se a viúva do Vidigal me cobrar. O carro quebrou. Fiquei afónico. Fui sequestrado. Mas não. Não podia deixar o Vidigal sem a sua música, fosse ela qual fosse. A viúva contava com ele. Devia aquilo ao Vidigal. Amigo é amigo, mesmo quando a gente mal se lembra quem era. E estava prometido.


O velório cheio. A viúva o recebeu com um beijo agradecido. Aquilo significaria muito para o Vidigal. E perguntou:

- Não trouxe o violão?

Rubens limpou a garganta e disse:

- Não. Vai à capela mesmo.


De uma coisa Rubens tinha certeza. Depois do enterro poderia dizer que nunca, em toda a história do mundo, alguém pagara um mico como aquele.


Domingo, 1º de julho de 2007.



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